sábado, agosto 06, 2005

 

Guedes: De onde vêm e para onde vão as micro-algas tóxicas

Chegaram, sem aviso, ao mar da Costa de Caparica e continuam a sua incansável viagem para Sul, em direcção à Fonte da Telha. Pelo caminho deixam praias interditas a banhos e uma mancha acastanhada de quase 20 quilómetros, mais do que visível a olho nu. As análises do Instituto Português de Investigação Marinha não deixam margem a dúvidas: as «micro-algas com alguma toxicidade» chegaram ao litoral português. O blog d'A Capital foi descobrir do que se trata.


A situação não é nova e, desprevenido, só apanha o banhista. Instituições competentes há muito que estudam o fenómeno, enquanto a comunidade científica tenta encontrar soluções para o problema. Mas do que se trata afinal? O nome não é fácil – são as florescências de cianobactérias, também conhecidas por blooms. Traduzido em miúdos: um amontoado de micro-algas tóxicas.

Se o micro lhe dá um ar de alga inocente, o tóxica mostra o seu lado negro. O aparecimento destes blooms – muitas vezes por culpa da acção do homem – traz consigo perigos vários quer para os ecossistemas aquáticos quer para a saúde pública.

Vamos, então, por pontos. O que é preciso para as micro-algas aparecerem? Tudo começa com a eutrofização. Confuso? Nem por isso. Todas as plantas aquáticas precisam de uma variedade imensa de constituintes químicos para crescerem, mas normalmente apenas o fósforo e o azoto estão em falta, exactamente aqueles que limitam o seu crescimento.

A eutrofização – que é o aumento da quantidade de nutrientes num ecossistema aquático - resulta, na maioria das vezes, do aumento destes dois nutrientes (sobretudo do fósforo) que permite a multiplicação descontrolada das algas. Na altura em que o número de nutrientes disponíveis dispara, nascem os blooms (aumentos de grande magnitude) de algas verdes e de cianobactérias (algas azuis) que podem ter efeitos nocivos.

Culpa Humana. A eutrofização pode ser natural, mas o homem nem sempre está isento de culpa. Quando tudo acontece por desígnio da Natureza, o sistema aquático torna-se eutrófico muito lentamente e o ecossistema mantém-se em equilíbrio. A água mantém a boa qualidade e a comunidade biológica continua saudável e diversa.

Pelo contrário, quando resulta de actividades humanas, o caso complica-se: o processo acelera-se, os ciclos biológicos e químicos podem ser interrompidos e, inevitavelmente, o sistema progride para um estado essencialmente morto. Inevitavelmente, o homem lança o caos.

Para isto, bastam acções cada vez mais banais no quotidiano humano: escorrências de campos agrícolas, efluentes industriais, esgotos e desflorestação. Em qualquer um dos casos, é libertado para os ecossistemas aquáticos uma grande quantidade de nutrientes que fica disponível para o crescimento do fitoplâncton (conjunto de algas microscópicas com pouco ou nenhum poder de locomoção, deslocando-se segundo o movimento da água, que inclui as algas verdes e as cianobactérias). A partir daqui, a história repete-se. É o ataque das micro-algas tóxicas.

Saúde Pública. Interditar os banhos numa praia onde surgiram micro-algas é a única decisão sensata a tomar. Para além das consequências que o bloom de cianobactérias traz ao ecossistema aquático (diminuição da capacidade de auto-purificação, diminuição da concentração de oxigénio, desaparecimento de algumas espécies, alteração do pH), há também as inevitáveis consequências para os humanos que advém da grande acumulação de toxinas e de parasitas, o que pode produzir fortes impactos ao nível da saúde pública.

O consumo destas águas, sem tratamento adequado, pode resultar em surtos de doenças agudas ou crónicas, dependendo da dose e tempo de exposição. A saúde humana pode ser afectada por inalação de cianobactérias ou de esporos, pela ingestão de água ou contacto directo.

A inalação pode produzir sintomas semelhantes à «febre dos fenos», como rinite, conjuntivite e dispneia ou bronquite aguda. O contacto pode desencadear irritação ocular, conjuntivite, dermatite, obstrução nasal, asma e provocar queimaduras na pele.

A ingestão acidental de água com doses elevadas de toxinas pode provocar intoxicações agudas, caracterizadas por um quadro de gastroenterite com diarreias, vómitos, náuseas, cólicas abdominais e febre, ou hepatite com anorexia, astenia e vómitos. A ingestão continuada de baixas doses de toxinas pode trazer alterações hepáticas crónicas. Estas situações podem ser também desencadeadas pela ingestão de moluscos, que como filtradores que são, acumulam nos seus tecidos doses não letais destes produtos, que são passados ao longo das cadeias alimentares, cujo elo final pode ser o Homem.


Comments:
Apesar de a explicação não me ser endereçada, não posso deixar de expressar o meu espanto com tamanha sabedoria acerca de "florescências de cianobactérias"... ;O
 
Podes crer Dri!!E é que é difícil de pronunciar pá...
 
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