sexta-feira, setembro 02, 2005

 

A importância dos costureiros na indemnização dos jornalistas

25 de Agosto de 2005. (Estou condenada a datar as minhas reflexões neste Blog… As minhas desculpas caros colegas…). Hoje fui à tal reunião de ajuste de contas do fecho “de má memória” de A Capital”, nomeadamente do Info&Net. Descobri que à semelhança de Roland Barthes, o eminente sociólogo e linguista francês, também os juristas (responsáveis pela avaliação da performance dos trabalhadores do jornal e pelo cômputo das indemnizações) consideram os textos - tecidos e a nós jornalistas, os seus costureiros. Desenganem-se os idealistas que fazem propaganda à liberdade de expressão, à imparcialidade, à mediação da informação, à importância dos Direitos de Autor, nós os jornalistas somos simplesmente costureiros. Hoje fui informada desta terrível verdade e estou destroçada (logo eu, que nem sei dar um ponto sem nó)!

Vejam como a coisa se processa, na teia subliminar dos princípios indeterminados de Direito que regulam os contratos de trabalhos: não interessa obedecer ao horário e pertencer à redacção, é irrelevante o facto de receber coordenadas do editor e trabalhar desde Novembro de 2002 no mesmo suplemento. De nada adiantou fechar suplementos à noite, na redacção, nos primeiros tempos, pois se tal como um costureiro a quem se encomenda um vestido ou um par de calças, também nós jornalistas temos com a entidade patronal de qualquer órgão de comunicação, uma mera prestação de serviços. Entrega a qualquer preço de vestuário à medida de vários modelos e cores - é isso que se pretende de nós…

Quinze anos em televisão, rádio e imprensa, uma licenciatura em Ciências da Comunicação na UNL, eminentes professores, jornalistas de tarimba, que se esqueceram de me alertar para o facto de as pessoas serem apenas modelos de peças dispensáveis do roupeiro das notícias… Não me conformo de mudar assim de profissão e de só hoje ter conhecimento!

Para terminar este desabafo, gostaria de relembrar que qualquer artefacto intelectual ou artístico obriga a especificar mediante forma escrita, os moldes pelos quais se orienta. Este pensamento dedutivo leva à seguinte questão: se a tipologia dos contratos se altera no decorrer da profissão para a qual fomos contratados, então porque é que nos avisam só agora, quando tudo terminou? – Não será a isto que se chama falta de ética?


Dulce Mourato

ps - Este post já estava há uns dias na caixa de correio d'A Capital, mas só agora foi possível publicá-lo. As nossas desculpas.

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

eXTReMe Tracker