quarta-feira, abril 16, 2008

 

ACORDO ORTOGRÁFICO - mais uma acha para a fogueira

Enviaram-me recentemente este texto de um tal Desidério Murcho (!!!) deve ser nick... mas tem alguma lógica o que escreveu!

O aspecto mais misterioso do Acordo Ortográfico revela-se nesta pergunta simples que nunca é respondida cabalmente: para que serve o acordo ortográfico? A resposta a que se alude é que serve para unificar as variantes da língua portuguesa. Mas isto é falso por três razões.

Em primeiro lugar, porque não há qualquer necessidade de unificação. Os britânicos escrevem “analyse”, os norte-americanos “analyze” (ver aqui algumas das diferenças ortográficas entre o inglês norte-americano e o britânico). A nenhum americano, inglês ou australiano ocorre unificar ortograficamente a língua inglesa, e ainda menos fazê-lo por via legislativa à Salazar, precisamente porque são gentes que prezam a liberdade e odeiam a interferência arbitrária da legislação na vida das pessoas.

Em segundo lugar, uma língua é muito mais do que a ortografia. É o léxico, a gramática, a fonética, entre outras coisas. Ora, este acordo evidentemente não unifica tal coisa. No Brasil, um fato é o que para nós é um facto, e um fato é no Brasil um terno, que para nós é uma pessoa ternurenta. No Brasil o pequeno-almoço chama-se “café da manhã” e os comboios chamam-se "trens". As diferenças são mais que muitas, e muitas mais haverá em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, etc. O acordo ortográfico não unifica a língua.

Em terceiro lugar, o acordo ortográfico não unifica sequer a ortografia. Continuar-se-á a escrever “fato” no Brasil e “facto” em Portugal; “género”, “António” e “génio” em Portugal e “gênero”, “Antônio” e “gênio” no Brasil.

Poderá acontecer que um alemão ao aprender português pela variante portuguesa tenha dificuldade em compreender um texto brasileiro? Ou vice-versa? Claro que não. Poderá uma besta qualquer das Nações Unidas ficar confundida porque tanto se pode escrever em português “facto” como “fato”? Talvez, dado o tipo de gente que anda nesse tipo de instituições. Só que, coitados, continuarão muito confundidos porque continuará a haver muitas palavras com dupla ortografia.

Então para que serve realmente tal coisa? Queremos aproximar os povos e as nossas variantes da língua comum? Publique-se livros no Brasil com a ortografia portuguesa, e vice-versa. Façam-se dicionários comuns, como o excelente Aurélio, que tem todas as variantes da língua (ou que pelo menos se esforça para as ter). Publiquem-se gramáticas que contenham todas as variações da língua. O mais absurdo da posição dos defensores da legislação ortográfica é que se em vez de andarem a tentar obrigar os outros as escrever como eles querem tivessem escrito dicionários, gramáticas, livros, propondo alterações ortográficas, estas poderiam ser naturalmente adoptadas sem necessidade alguma de legislação. Então para quê a legislação?

Além da idiotice de se pensar salazaristicamente que sem legislação sobre a ortografia cada qual escreve como lhe dá na gana, não vejo qualquer boa razão para esta insistência na legislação ortográfica. E vejo muitas desvantagens.

Além de tornar as pessoas bovinas — agora de repente temos de reaprender a escrever palavras porque uns iluminados que nada têm publicado que seja influente usam o poder político para ter a influência que naturalmente não têm a capacidade intelectual para ter — este acordo tem muitas desvantagens para quem conhece as realidades africanas e brasileiras. Nestes países, uma parte importante das bibliotecas e do ensino baseia-se em livros portugueses com 30 anos ou mais. Quanto mais se muda a ortografia, mais difícil será para essas crianças dominar a ortografia precisamente porque aprendem quase exclusivamente por livros que passam a estar errados -- crianças que não têm dinheiro para ir a correr comprar as últimas novidades com a nova ortografia, não lêem jornais e mal dominam a língua portuguesa.

Quanto mais se mexe artificialmente na ortografia da língua, mais difícil é o domínio da ortografia para as pessoas mais carenciadas. Basta ler os comentários de publicações inglesas ou americanas online para ver que quase não há erros ortográficos, ao passo que nos jornais portugueses de referência, como o Expresso ou o Público, as caixas de comentários estão pejadas de erros ortográficos. Sem dúvida que não são apenas as constantes mudanças legislativas de ortografia que provocam tal atraso, mas sem dúvida também que tais mudanças têm um papel importante a desempenhar aqui. As pessoas aprendem ortografia em grande parte pelo que lêem; se o que lêem for uma selva ortográfica que resulta de inúmeras legislações sucessivas, é natural que tenham mais dificuldades com a ortografia.

O acordo ortográfico não tem qualquer vantagem para os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos, os guineenses ou os portugueses. E tem desvantagens óbvias. Quem ganha com o acordo e o que se ganha com ele? Esta é a questão importante. E só vejo duas respostas.

Primeiro, ganham os intelectuais que fizeram o acordo, que ficam assim na história. Triste maneira de ficar na história, diga-se de passagem: como autores de listas de palavras. Enfim.

Segundo, ganha talvez o Brasil, porque usa o acordo como uma maneira de tentar cativar os mercados africanos, para se abrirem mais às exportações do Brasil e menos às da China. Contudo, não é o acordo em si que facilita tais exportações: é apenas um sinal de aproximação do governo brasileiro que poderá fazer os governos africanos abrir-lhes mais as fronteiras. Não haverá uma maneira mais simples de conseguir esse objectivo? Penso que sim. Acordos comerciais bem pensados e economicamente vantajosos para todos os países que falam português não serão difíceis de conceber e efectivar. Bom, excepto para quem pensa que mudar a ortografia de dois por cento do léxico é um passe de mágica para a afirmação do português no mundo.

Comments:
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.

A teoria de Darwin é mesmo verdadeira e Portugal, se teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.

Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.

O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos (PALOPs) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. Não poderemos esquecer-nos de que são países independentes e poderão decidir como muito bem entenderem.

Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!

Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há apenas cerca de 250 anos. Outros tantos anos a divergir e já não nos entenderemos, terá então que ser considerada uma outra língua.

O acordo ortográfico é uma decisão apenas política que os técnicos terão depois que aceitar e seguir. Será uma pena rejeitarmos agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.

Zé da Burra o Alentejano
 
Terá mesmo existido a Torre de Babel? Faz sentido... quanto mais nos entendemos mais estragamos...
Eu ficava com a nossa lingua... e eles que usassem o brasileiro...
CM
 
O Desidério Murcho foi meu colega na faculdade ... é um pouquinho insuportável como pessoa! MAS PENSA BEM! O que é IRRITANTE!
É um pouco díficil para quem não pensa e não sabe pensar ... LOL!
 
O ZÉ da BURRA ENLOUQUECEU de BURRICE!!!!
 
Se a questão é política para quê falar do "c" e "p" e etc??
Não percebo!
A questão é mesmo o que ganha PORTUGAL em CEDER ao Brasil que, por sua vez, IMPÔS estas mudanças? Qual a LEGITIMIDADE POLÍTICA do Brasil (em termos da sua HEGEMONIA Internacional) para Exigir ACATO de PORTUGAL ao que lhe parece conveniente convencionar? Pelo representante do SIM ao Acordo ( Carlos Reis) verificamos que não existia SERIEDADE Linguística ( exemplificado em directo na RTP! P.Ex.: Como é que um Açoriano tem a desfaçatez de dizer que é para aproximar a grafia da fala! Para nos facilitar a vida!! Ele está redondamente a brincar. Porque como Açoriano sabe perfeitamente que isso é uma Bizarria!!). Nós estamos somente e repito somente a aproximar a grafia PORTUGUESA da do Brasil! É só isso! Os “c” e “p” é mesmo só para nos distrair, fazer de conta que o assunto é sério! Foi Seriamente tratado! Quando pelo que assistimos na praça pública(!) país que se preze fá-lo (!) Não consultamos NENHUM FILÓSOFO! … Pois! É uma comunidade Invisível! mas não perguntem ao Barata Moura ( P.F.V). O que esta questão nos demonstrou também é que temos mais uma série de medíocres que se fazem passar por escritores e poetas … e n escrevo mais … vale
 
Se queremos considerar a língua falada no Brasil como brasileiro e não queremos ceder na aproximação, condenamos automaticamente a existência de uma só língua.

Portugal (10 milhões) terá que ceder sempre mais relativamente ao Brasil (220 milhões) e um dia teremos que contar também com os milhões dos restantes países que consideramos luso-falentes.

Assim, se Portugal não quer ceder, será melhor CALAR O NOSSO ORGULHO PATÉTICO DE DIZER QUE SOMOS A 4.º LÍNGUA MAIS FALADA NO MUNDO....

Zé da Burra o Alentejano
 
A mim pouco me importa que sejamos a 4º, 5º ou 6º... não quero é escrever como os brasileiros!
Ponto final... Para mim ficava assim e mai nada...
Basta ler um texto de "brasileiro" para ver que eu não quero escrever daquela maneira! Fonix - CM
 
Este acordo é fixe para gajos como vocês. Agora podem dar erros à vontade e desculparem-se com isto.
 
Olha o tio Bitaites...
Mas és a favor ou contra o acordo?
Deves ser o máximo a escrever... deves ter livros escritos e tudo...
CM
 
Eu ao menos ainda sei o que quero... os que se calam, não sei!
CM
 
Há cerca de 100 anos fizémos alterações nesse sentido que hoje ninguém contesta: basta pegarmos num livro desse tempo e facilmente constataremos muitas diferenças gráficas, por exemplo: commissario, auctoridade, offerecer, allemão, commercio, thermometro, affirmar, jury, official, (e o seu plural) officiaes, monarchia, d'elle, d'ella, d'este d'aquelle, n'esse, n'essa, pharmacia, elephante, sêco, Victor, Luíz, Benguella, Mossamedes, Pôrto, Cintra, Cezimbra, Barca d'Alva...

Zé da Burra...
 
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